Histórias construídas com J. Guilherme Lício, do http://prypiat.wordpress.com – um dia desses sai a história toda sob o ponto de vista dele.
21 de Novembro de 1929
Lembro de ter chegado pontualmente às 8 na repartição. Subi os três andares que levavam ao 34 da Ala B do Edifício General Altamirando Gomes e entrei na sala prevendo o pior.
Realmente, o que me esperava era o pior. Assim que entrei, dei de cara com um Silva enfurecido, dizendo barbáries sobre mim e destruindo quase tudo que encontrava. Eu não tive a audácia de perguntar o que tinha acontecido, porque, de fato, eu já sabia o que tinha acontecido: as ações tinham virado lixo, pó, vento, ou o que você quiser. As ações deixaram de ser, had ceased to be.
Silva me viu e veio gritando em minha direção, dizendo que ele tinha avisado, que eu caí na lábia do Siqueira, e que o Peixoto tinha dito que aquilo iria acontecer. Que eu devia ter vendido tudo antes, antes que nada mais não tivesse valor nenhum, que, pelo menos aí, teríamos alguma merreca pra dividir e comer por mais uma semana pelo menos. Estávamos quebrados.
Eu me defendo, como sempre, com o mesmo argumento de que Siqueira era um superior e eu tive que obedecê-lo, não tive culpa. E agora, tinham que ver com ele sobre isso, porque eu só segui ordens e a culpa não era minha, quer dizer, eu mesmo teria vendido as ações há oito meses atrás, quando as coisas começaram a apertar e eu me lembro de ter dito pro Queiroz, “Queiroz, vamos vender essa bagaça antes que o couro coma, e se o couro comer, o couro de todo mundo aqui vai ser comido, e até os ossos”, e ele não me deu ouvidos.
E o telefone toca. Esse maldito telefone toca. Pra fugir das acusações do Silva encapetado, eu pego e atendo o telefone. Péssima ideia. Era o Mendes, mais encapetado ainda do que o Silva.
- Ô, Lorival!? – com a voz carregada de ódio.
- Fala, Mendes.
- Que é que tu fez?!
E aí começou tudo de novo, trocas de xingamentos, trocas de argumentos, mas de nada adiantava nada, porque tudo já tinha ido pro espaço.
O maledeto ainda teve a coragem de me dizer que não era pra ter ouvido o Siqueira, que todo mundo sabia que ele tinha esquema com o Marques e que eles sairiam dessa ilesos, sem nenhum arranhão no orçamento. Eu sempre duvidei disso tudo, mas agora parecia real. O maldito Siqueira me engambelou e ainda por cima saiu tranquilo, no maldito opala que dividia com o Marques. E nenhum dos dois nem pra dar as caras e pelo menos varrer o chão pra deixar o apartamento com dignidade pra imobiliária, nada disso.
Deu 8:16, eu desliguei o telefone pesado de raiva. Decidi “vou no banheiro pra dar uma relaxa”. Entrei no banheiro, lavei o rosto e me olhei bem seriamente no espelho, dizendo:
- Vamos ter calma! Não é porque o mundo caiu que eu vou me jogar no chão.
Saí praquela maldita janela pra fumar um cigarro. E também isso foi um erro.
Da janela, eu vi chegando na aparentemente calma rua o bendito opala bege de Queiroz. Aquilo me partiu a cabeça e quase tive um AVC, ainda bem que andava praticando cooper.
Pra surpresa de todo mundo, quando Queiroz chegou, ele também estava bruto, mas não era por causa de nenhuma ação. Ele procurava ferozmente seu charuto cubano que tinha ganhado da sogra, Soninha.
Remexeu tudo, jogou tudo no chão, colaborando decisivamente para deixar o ambiente inóspito. E procurava o charuto cubano da Soninha por toda parte, e xingava todo mundo, e me xingava, e eu xingava de volta. Sempre fui implicado com o Queiroz e não posso contar nos dedos o número de vezes que mandei-o tomar em seu respectivo orifício. Apesar dele ser um superior, eu nunca temi nada dele e ele sempre esteve no meu pé. Era uma relação respeitosa de ódio mútuo.
Continuava o Queiroz a procurar o cubano e veio com tudo pra cima de mim, me acusando.
- Ô, Lorival, onde é que tá o maldito cubano, seu porre?!
- Vai – pausadamente – tomar no cu, Queiroz! E aproveita e enfia lá o cubano também!
- Vai pro inferno, moleque! – e quase me deu um murro na cara, mas eu desviei e empurrei ele pra longe.
Nesse empurrão, ele deu de testa com a pobre fotocopiadora. Isso o tirou do sério e, para não me matar, pegou a máquina, ergueu-a com toda a sua velha força e a atirou pela janela. Nunca vou me esquecer de como ele saiu de lá rapidamente, enfurecido, e de como eu saí na janela pra ver o estrago e fiquei com as mãos levantadas, exclamando:
- Pupa que pariu, esse velho tá doido!
Isso, mais tarde, fez com que me acusassem pelo crime da destruição da fotocopiadora, mas consegui me safar, porque contei muito detalhadamente o que tinha acontecido naquela manhã, sempre tive boa memória.
Depois de ver, pela janela, a destroçada fotocopiadora, resolvi que iria lá embaixo ver como é que ela tava. Tinha uma boa desculpa pra dar uma relaxada.
Cheguei ao solo, e fui em direção da dita cuja. Ela tinha deixado de ser, had ceased to be. Estava desintegrada na minha frente, em cacos.
Porém, uma coisa eu reparei: a sua portinhola destinada à colocação de tinta continuava inteira. Me aproximei daquela marginalidade financeira, me agachando do lado dela. Abri a portinhola, meti a mão lá dentro e comecei a rir desenfreadamente.
Além de um pouco de tinta, o que encontrei na portinhola da finada fotocopiadora foi um belo, intocado e agradável cubano.
Foi o melhor charuto que fumei na minha vida.
13 de Maio de 1976
Há tempos, o tempo tinha passado e, com isso, algumas mágoas. E lá estávamos alguns de nós novamente, no mesmo prédio e na mesma repartição – Queiroz tinha conseguido tudo de volta por causa de uma aposta em 75. “Dessa vez é sério”, ele disse.
Passados uns meses, já ambientados com a rotina de trabalho, trabalhávamos e conseguíamos um lucro razoável.
Na tranquila manhã dessa sexta-feira, 13 de maio, eu acordei já atrasado por causa de uma cachaçada no dia anterior e, quando cheguei na porta do prédio, o porteiro me disse:
- Amigo, não chegou ninguém ainda da sua repartição e eu não posso deixar você entrar, precisa esperar o Queiroz porque ele tem a autorização e, além de tudo, as chaves.
- Tá certo.
Quer dizer, não tá nada certo. Já eram 8:30, sendo que entrávamos às 8, e eu era o primeiro a chegar.
Então eu fiquei lá, sentado na calçada, achando tudo aquilo muito ridículo, e com uma ressaca lascada. Minha cabeça doía demais.
Depois de uns vinte minutos, vejo o opala bege chegando.
Queiroz sai do carro, se achando todo elegante, para pra acender um cigarro, e volta a andar. A hora em que o maldito me olha sentado na calçada, tem a coragem de me dizer uma coisa assim:
- Ih! Chapou e dormiu aí mesmo?!
Fiquei transtornado.
- Ô, Queiroz, vê se vai fazer aquele nosso combinado vai, eu to aqui faz meia hora esperando e você me vem com uma merda dessas?!
- Chega disso, moleque. Preciso conversar sério com você. – ele ficou sério.
Até aí tudo bem, ele abriu a porta, a gente entrou na repartição, começamos a trabalhar e ele me veio com esse papo de novo.
- A gente precisa falar sério.
- Tá, manda, vai.
E começou com um papo de que a sua ex-sogra, Soninha, estava em seu leito de morte e que ele iria visitá-la a pedido dela mesma, e ele temesse que ela pudesse perguntar sobre o charuto cubano de 40 anos atrás que eu tinha achado na fotocopiadora e fumado e então ele precisava saber o gosto e coisa e tal.
Eu olhei bem pra cara dele e disse:
- Ô Queiroz, eu posso te falar o gosto do cubano sim!
- Não, não! Você precisa é arranjar um cubano pra mim, aí eu vou fumar e ver como é.
Esse cara era demais.
- Isso é um absurdo! Como é que eu vou arranjar um cubano hoje?! Cuba tá em regime fechado, meu irmão! E outra que eu não tenho dinheiro nem pra ir pra Olaria!
- Você vai ter que dar um jeito!
E continuou ele a tarde toda me enchendo o saco, falando que eu precisava arranjar, tal, pra eu ver no mercado negro se coneguia e todo tipo de coisa assim.
Mas o bicho falou tanto, que eu fiquei estressado e pedi pra ele parar com essa merda, uma última vez.
Claro que ele não respeitou a minha sugestão e continuou enchendo o saco.
Recordar é viver: eu me levantei, puto da silva, peguei a maldita fotocopiadora, levei até a mesma janela de 1929 e defenestrei-a. Deu pra ouvir o delicioso som dela se espatifando no chão.
O Queiroz, idiota que era, ficou sem reação, me olhando e tentando raciocinar sobre o que eu tinha feito.
Eu virei pra ele, na maior raiva, e disse:
- Ó, Queiroz, desce lá e vê se tem algum cubano na maldita portinhola. Aproveita e vai pra pupa! Eu me demito dessa merda! Não dá pra conviver assim!
E então eu saí, com todas as minhas coisas. Um dia depois, ele me ligava pedindo desculpas e falando pra eu voltar pra repartição. Eu aproveitei e pedi um aumento e uma garrafa de uísque. Ele disse que aumento não dava pra dar, mas que garrafa de uísque ele arranjava três. Fechado.