O Fim do (começo do) Mundo

Falam sobre o fim do mundo como se fosse ser algo muito espalhafatoso e até rápido. Deu meia-noite do 21 do doze, e em vinte e quatro horas não sobrou mais nada.
Discordo dessa visão.
Acho que se o mundo fosse acabar, ele já estaria acabando há muito tempo. Muitos por aí dizem que já estamos morrendo quando acabamos de nascer, todo dia se morre um pouco. Pro mundo também vale. Todo dia ele acaba um pouco.

E por que não? Me desculpem por acabar com as expectativas pelo dia 21, mas não acho isso muito provável.
Nunca antes na história do mundo, estivemos tão preparados para o seu fim como agora. Faz uns dois anos que as pessoas estão falando disso, todo mundo já se acostumou com a ideia.
A maior surpresa seria se absolutamente nada acontecesse. Aí sim, pô, que merda é essa? Cadê as catástrofes?

E existem aqueles que já se prepararam pro fim, estocaram comida, transformaram a casa num forte e coisa e tal. Mas aí eu lhes pergunto: por quê?! Se o mundo acabar, o que você vai fazer com comida? Seria muito melhor estocar bebida. E de que adiantará se enfurnar na sua casa, perdendo a última oportunidade de dar uma saída, uma volta, um rolê, pra passar o fim do mundo na chatice do lar com a chatice da sua família? Ou então sozinho?

Não sei o que pensam essas pessoas. “Ok, vou passar o fim do mundo em casa, e aí depois eu saio pra dar uma volta”.

O ser humano funciona assim mesmo, perde grandes oportunidades de se divertir às 20h só porque tem alguma coisa marcada pras 21h.

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Samba do Errante

Depois que ela o deixou

ele foi ficando louco
lavava as mãos pra dormir
escovava os dentes pro almoço

Tentava subir a escada
escorregando no corrimão

Abria a janela pra ir pra cama, quando acordava,
vestia o pijama
e no caminho pro trabalho
parava de bar em bar
e até achava estranho
nenhum amigo encontrar.

Visitava a mãe viva
indo ao cemitério,
esperava o pai morto
na saída do ministério.

Ficava de luto
quando mulher de amigo engravidava e chorava de alegria quando um conhecido se suicidava.

Jantava no café da manhã
almoçava o chá das cinco e ia numa escola votar todo domingo.

Nunca tornou a ser direito
até que ela voltou
dizendo que estava errada…
Hoje vivem juntos,
desse jeito contraditório
e se casam uma vez por mês
no sanatório…

O Investidor Moderno entra em Crise

Um simbólico lost-weekend em Bauru.

A vida, às vezes, nos pega pelo colarinho e nos joga no chão. A gente pesa e acha que a culpa é da vida, ou do chão, mas não da jaqueta.

Fui pego por um sentimento desses pelo fim de semana todo, até segunda. Na verdade, foi um misto de contentamento e desalegria. Que pena, não, que beleza. Na ida, a vista do rio anunciava a mudança, mas eu apenas me diverti com ele.

No durante, o enquanto e o encanto das coisas. Uma vida fácil, talvez, embora arrastada.

No final, outro começo. Um presente cheio de bons presságios e boas notícias. Quase choro, no meio de todo mundo, sem preguiça nem esconderijo.

No depois, o mesmo rio, de outro lado, já não era o mesmo rio. As conversas que tive há uma semana atrás ecoavam nas minhas pernas.

E então, a crise. A insônia necessária, a contabilização e organização dos cacos jogados pela minha existência, sem nenhum cuidado, sem medo de se cortar ou de acabar quebrando e estilhaçando ainda mais.

Aí junta tudo e vê o que faz. Até que surgem os talvezes, as dissoluções. Entendi, agora vai. Ai ai ai ai ai.

E enfim, estou aqui, com um saco preto de lixo cheio dos cacos e dos cortes. Tá pesado, mas é o que tem pra hoje, pra amanhã é reconstrução, ou plena desconstrução.

Pausa pra não dizer que não falei das cores – totalmente descontextualizado.

A gente sempre acaba querendo que a vida seja mágica e breve em seus efeitos. Mas isso não acontece, e decidimos que a vida é um pouco amarga e lenta, demorada e arrastada. Só que a vida depois se mostra mágica, mas não breve. Uma magia longa, constante, que é efeito e causa ao mesmo tempo, sem ser nenhum dos dois, as coisas da vida e a vida das coisas, cessando e sendo, eternamente, graças a deus ou não, am´m.

E agora um mais descontextualizado ainda, porque a vida não tem contexto nenhum. p.s.: esse eu acho meio vago, mas engraçadinho.

Panorama Interiorano

Nunca saí do meu mísero estado, e por isso não tenho a capacidade, a propriedade e nem a autoridade pra falar de qualquer coisa que não seja caipira. O que, porém, eu tenho é o domínio do caipirismo paulista. Percorri longas estradas de terra e de asfalto e terra por aqui e vi cidades miseráveis. Muitas são milhares.

Não é necessário ir do urbano ao rural, porque quase nada no interior consegue ser só urbano ou só rural. No meio da maior avenida da cidade você ainda sente cheiro de terra ou vê cisco de cana pra todo lado. A cidade inteira é variavelmente assim. Me parece, poeticamente, que o asfalto não terminou sua transformação. Me parece que a areia do interior teima em virar asfalto, se me entendem, a terra vermelha e os pedregulhos tentam virar asfalto e pedrinha. Mas, graças a Deus, à cachaça e tudo mais, não conseguem. Tudo fica no meio termo. Sinto o cheiro do discurso do progresso.

– PROGRESSO! PROGRESSO! – gritam os pedregulhos.

A terra seca, coitada, sob o sol do meio-dia de um almoço de família no bairro de classe média, percorre o terreno baldio inteiro, com algumas plantações por alí. Um pé de goiaba, que dá uma goiaba bem pequena, e outro pé de manga, uma beleza. E o pé de manga fica bem perto do muro e quem passa, se se esticar, consegue pegar uma manga e se deliciar. A tristeza é ver do portãozinho de madeira todas as goiabinhas inalcançáveis.

Outra coisa bonita é o ver de longe, ou verde longe, como queiram. O verde longe é ver o verde de longe, deitado na rede, talvez de um rancho, onde o urbano ameaça com uma vendinha do Tião, tocando sertanejo universitário e vendendo Coca-Cola dois litros a cinco reais. Isso é um absurdo, discutem as velhinhas vizinhas, na cidade não passa de três. A outra ainda diz que eles só fazem aquilo porque são a única vendinha num raio de vinte quilômetros.

E a gente vendo de longe aquele matagal enorme, um morro mais ou menos alto, eu diria que estável, bonito e verde, tão inalcançável pela preguiça da rede como o dia nascente. E o dia nascente também. Mais bonito que o dia nascente quase que só o dia nascente com chuva. E a sapaiada gritando sem parar BÉGOBÉGBÉGOBÉG, que coisa chata, que coisa chamativa. E as maritacas, meu deus do céu, o IBAMA que me perdoe, mas deixa pra lá.

Uma coisa notável mas não bonita é o cheiro de peixe quase que constante. Mas, me entendam, o cheiro de peixe não é integralmente de peixe, ele se mistura com o do rio. É até gostoso, na verdade. Sentar na escada que dá direto no rio e quando o rio enche alaga a escada toda, que fica nojenta o resto do ano.

E de cidade em cidade percebe-se umas peculariadades. Algumas cidades, como diria meu amigo Jospe, têm um ar decadente, outras nunca chegaram tão alto, e outras, enfim, totalmente aleatórias. Não vou citar nomes, claro, para não provocar a rebelião, mas em uma das cidades, do lado da rodoviária, havia uma praça enorme que era composta apenas de chão concretado. É inacreditável a genialidade arquitetônica do interior.

Tem coisas que se vê e que não se acredita. Uns prédios com coisas sobrando e aquele incontestável e até admirável esforço de ser uma cidade grande e urbana, quase uma metrópole. Até as que chegam a ser uma metrópole, sendo do interior, dá pra ver que o povo não tirou o pé da terra roxa. E isso eu falo com alegria.

Aquela outra nossa querida e famosa cidade que deveria ser estudada por Linguistas e talvez Antropólogos, pois possui um idioma totalmente alheio ao nacional. Diria que é um idioma perdido, Indiana Jonesmente falando, entranhado nas camadas mais profundas dessa comunidade. É uma coisa bonita. Você vai lá só pra ouvir os nativos falando e fica entre o riso e a emoção: eles são roots.

Querido interior, não tente ser São Paulo. Ninguém precisa disso, já temos uma. Ninguém também precisa ser a Atenas Paulista, ué, pra quê? Estamos muito bem assim, como nosso R característico, nosso português meio preguiçoso, e pra cabá de veis, eu vou indo que os menino foro tudo jogá bola.

O Portamola

O estado das coisas é sempre interessante.

Às vezes estou cantante, andando, voltando pra casa, citando Martinho da Vila pros cachorros, e me cai uma chuva de ensopar.

Uma vez eu disse “Ninguém é feliz” e todo mundo adorou, mas ninguém falou nada, cada um com medo do que cada outro iria achar, ou com medo de dar pinta pra todo mundo, “olouco, o Nogueira é infeliz”.

“Uma coisa é frescura, outra coisa é viadagem”, disse Chico Anysio, certa vez, no Roda Viva, mas não se importaram e continuaram a fazer perguntas sobre a Globo, como qualquer um de fora. Eu nunca fui de achar Chico Anysio um grande humorista, mas agora que ele morreu, talvez.

E o Millôr também foi pro beleléu. Dois em uma semana. Humortes.

E os Humoralistas continuam soltos. Já não estou tão divertido. Só faço essas coisinhas pequenas e falo demais. Falo pra caramba.

Outro dia escrevi cinco páginas sobre um dia só, manhã, tarde, noite e madrugada. Não botei em nenhum lugar, só li pra um amigo. Eu tenho vergonha de quando eu escrevo comigo, e não com outro, como o Investidor Moderno. Não que aquele não fosse o Investidor Moderno. Aquele lá era o Investidor Moderno, só que a vida era minha. Era o Investidor Moderno invadindo minha vida, roubando minha Ocasião e usando ela pra ele.

Aí ontem eu tentei voltar, mas não fui capaz. Hoje eu voltei, como o Investidor Moderno.

E não dá mais pra acompanhar as notícias e falar coisas engraçadas sobre elas. Não se ouse achar que isso tudo é tristeza e desânimo. Isso tudo é preguiça.

O Investidor Moderno se mudou pra Athenas Paulista, então imaginem o estrago.

Voltando da Athenas Paulista, ainda outro dia, estive no ônibus com nortistas. Eles estavam conversando todos numa boa, quando um deles pediu pro outro falar baixo. Cacetada de fusca, o outro ficou danado.

– Eu sou do Norte! Eu falo alto! Vim de Pernambuco! Se nêgo achar ruim, eu resolvo na faca! Comigo num tem essa! Eu num mexo com ninguém, mais se nêgo mexê comigo, o bicho pega! Eu sou do Norte! Tenho treze filhos! Duas famílias! Eu fico sempre na minha, num mexo com ninguém!

E por aí foi longe, sem parar, monologando.

Mas nada contra. O cara fala o que quiser, por quanto tempo que quiser, sem ninguém responder, sem ninguém falar nada, ele tem todo o direito de ser idiota desse jeito.

É isso.

Estou falido.

Volto assim que tiver mais R$4,35.

Eu e a rede

Por enquanto nada, só a lama no sapato.
Uma viagem cancelada, acontece. Vide 1929, minha intuição é “assim” com o dinheiro. Se um falha, o outro vem junto.
Já de 1934, eu não sei de nada.
Balançando na rede, percebi que tudo era possível, e dei um jeito de pensar isso mais vezes, por isso que eu mal saí da rede.
“O Seu Antônio está para o parquinho assim como o parquinho está para a escola.”
Fiquei balançando na rede o tempo todo, meu ritmo até quebrou. Fiquei lento, lento. E senti que tudo era possível muitas vezes.
Até cancelei a viagem. Dinheir0.
Na ida ainda conservava qualquer gás, qualquer ânimo. Mas durante os três dias, tudo se foi.
A noite do primeiro, o dia do segundo e a tarde do terceiro.
O segundo foi meu preferido.

Mas não foi isso que quis dizer, não estou desanimado. Só voltei em outra marcha, sabe como é. Vou ficar por aqui. Amanhã ou depois aparece o Johnny Cabelinho, o meu primo.
Sonhei com um filme de massinha e de terror, que eu não consegui assistir e menti que vi inteiro. Sonhei também com o casal que eu mais gosto, eles que me deram o filme pra assistir, e eu menti pra eles.

Senti o chute do bebê de minha prima. Chute ou cabeçada. Pra mim era cabeçada. É legal sentir a vida antes dela mesma.

Acho que fiquei demais na rede, talvez tenham me achado um vagabundo. Eu só não consegui ser diferente naqueles dias. Mas até que dei uns passeios. No segundo dia tinha chovido durante a manhã. Isso deixa o dia sensacional.

Parece até que a vida é perfeita. Parece até que tudo é possível.
Preciso de uma rede no meu quarto.

Eu vou é pro Rancho

Eu to indo pro rancho, minha gente. Dar uma volta, uma passada, uma equilibrada.
To escrevendo tudo isso na pressa, pois o interfone pode tocar a qualquer momento.
Bonita palavra, interfone. Ela consegue significar tudo e nada ao mesmo tempo. Inter-phone.

Eu não to nem aí, vou escrevendo qualquer coisa e se ele tocar, eu atendo, volto aqui, clico em publicar e vou embora, sem nem divulgar. Eu to malandro, eu to maroto.
Sou do balaco baco, quando eu falo, eu falo pra valer, no duro. (Enzo, essa foi pra você).

E vamos lá, daqui a pouco já são 17 horas e eu continuo escrevendo e nada de chegarem. E eu nem calcei o tênis.
Não calcei porque eu tava na casa do Phillip Long, ajudando o Guima a gravar umas músicas. A casa é aqui perto e eu fui de bicicleta. Deu 15:40 e eu voltei, na chuva mesmo. Não tá chovendo muito, mas é o suficiente pra me ensopar no caminho. Então vim de bicicleta na chuva.
Devo-lhes dizer que é uma baita sensação boa. Só que a sensação não vai ser boa amanhã, porque eu to com gripe.

Voltei na chuva e o tênis ficou todo molhado. Eu troquei a calça e tirei a minha blusa de lã do Wally. Então eu to de meia, mas tá tudo arrumado.
Só falta pôr o tênis, quase nada.
Já arrumei a mala, dobrei todo o cobertor que não tinha dobrado antes. Tá quadradinho, do jeito que as mães gostam, 90 graus de ângulo em todos os cantos.

E nada até agora. Eu queria desenhar e deixar aqui alguma coisa, mas na minha tia não tem scanner, eu acho, ou então eu não achei.
Então vão ficar sem desenho. Que coisa.

Devo-lhes contar também da matéria que fizeram no Esporro Zine comigo. Eles publicaram uns desenhos, falaram um pouco de mim e me fizeram uma pergunta bacana.
Pergunta bacana é aquela que você sempre quis responder mas ninguém nunca fez.
Eles fizeram.

Um dia eu posto todas as minhas perguntas bacanas pra, se um dia você me encontrar, ter perguntas bacanas pra me fazer. Ou se quiser me entrevistar, sei lá. Eu não to me achando famoso, não é isso. Imagina você que faz certa atividade com prazer e gosto. Imagina que você não gostaria de responder certas perguntas sobre isso… claro que sim.

Eu falei, isso tá ficando muito grande. Muito extenso, nem todo mundo vai querer ler.
Então eu vou finalizar. Só saberei o que acharam disso tudo no domingo. Pelo menos terei tempo de divulgar. Minha divulgação é um cocô de compartilhar no Facebook. Pra você ver como eu não to me achando famoso. Eu sou ruim mesmo, rústico. Pacato e singelo, nunca quis mais do que pude.
Não quero a maior fatia do bolo, eu quero é aquela do canto, que vem cheia de recheio.

Interfone, palavra feia…

A Guerra é Declarada

Hoje, pra dar uma variada, eu convidei meus amigos da Organização Contrafavontra de Ciências e Letras, uma facção semi-secreta e sem fins lucidativos, para me ajudar neste post temático.

Como assunto primordial teremos a Guerra. A Guerra foi declarada.

Primeiro, defino-me Guerra

Guerra não é só sangue. Pode também ser considerada tripas, ossos, órgãos e, por que não, unhas. Além de tudo, guerra implica a vontade radical de alguma coisa, seja pra bom ou pra mal. Normalmente é pra mal.

Guerra e Paz não são a mesma coisa, mas é por bem pouco. Guerra é passar o pé no filho do Zeca que tava enchendo o saco. Paz é fazer isso sem que ninguém veja. Enquanto a Guerra mata e transforma, a Paz arremata e reforma. Eu também não sei o que isso significou.

Enquanto a Guerra cria, a Paz esfria.

E já que a Guerra foi declarada, começamos já a esperar a paz.

Segundo, o Guerrear

por Rafael Viana

Até outro dia, o ato de guerrear era visto como um duelo. Sim, um duelo em magnânimas proporções, mas ainda assim um duelo. Não obstante a grande quantidade de hemácias derramadas nos campos de batalha por aí, parecia ainda haver um senso de honra, um quê de classe. Buscava-se manter um mínimo de civilidade nessas coisas.

Mas daí a própria guerra foi utilizada pra mudar essa situação bonitinha. Entre as trocas de posse do chicote do poder, o mais alto escalão do Exército mudou de Marechal pra Chief Executive Officer e a cúpula de estratégia virou Board of Directors. E a guerra, anteriormente usada pra, digamos, pegar terras da Igreja (e usando como pretexto troca de mulher), ou destruir um rival comercial (e usando como pretexto roubo de mulher), passou a ser utilizada pra pegar óleo preto dos outros, pra pisar na cabeça dos outros, e outras coisas enfadonhas.

Okay, okay, olhando em retrospecto, realmente a guerra não era muito boa antes. Mas a Medicina também não era muito boa antes, e veja só onde chegamos. O que quero dizer é que a guerra, conquanto também tenha começado a usar lasers, como a Medicina, ainda não achou um jeito de ser tão eficiente quanto aquela. Só acredito na eficiência desta quando inventarem robôs invisíveis que atravessam paredes e matam direto o líder e–

Tá, deixa pra lá. Guerra só é legal pra quem sobrevive, e olha lá. Quem aqui não sente dó das vítimas da primeira guerra, que nunca viram miojo no supermercado, nem usaram um microondas pra fazer o mesmo? Eu sinto! 😀

Terceiro, a Guerra como necessidade fisiológica

O Último (Cientista) que Sair, Apaga a Luz!

por José Guilherme, de Prypiat

A/C Investidor Moderno

Meus amigos, não precisei subir nos ombros de ninguém pra ver, até porque o que vi não estava lá tão longe. Em vez de destruir meus preciosos bastonetes, preferi usá-los para apreciar as cores todas do pão de queijo que foi trazido até minha humilde existência por nobres funcionários.

Os funcionários do Instituto, por sinal, são dignos de nota. Servem bem, são agradáveis, competentes, humanos e até desejam bom dia. Não são, definitivamente, do tipo que cospem na comida alheia e jogam uma folha de alface por cima fingindo que tudo é parte do molho especial.

Gostaria era eu de distribuir algumas cusparadas, mas não neles. Em vez disso, queria mesmo era escarrar, conceitualmente – até porque fisicamente seria de tanto impacto e tanta importância quanto um catarro lançado elipticamente* a um vaso sanitário cheio de material orgânico, vulgarmente conhecido como merda – nos pomposos arquiduques da pataquada científica.

Não gosto de criar intriga. Odeio falsidade e hipocrisia. Amo animaizinhos. Não é que eu fique reparando. Longe de mim abrir a boca pra falar mal de gente tão digna, mas, doutor, eu não me engano: quem muito fala de completeza é que não consegue completar sequer uma auto-higiene bucal na cachola do intelecto.

Vejo, aqui no Instituto, muitos títulos, mas não são os do Corinthians**. São fotos, papeis, artigos, ternos, educação solene, etiqueta – mesmo que pra fora da gola ou saltando dos fundilhos sociais -, nem parece que são pessoas com um mínimo de amor pela ciência!

Sempre que digo “eu faço física” e alguém retruca “educação física?”, sinto um estranho prazer subir por minhas pernas ao treplicar “não, física sem educação, mesmo”; é triste ver – ou melhor, não ver – certas atitudes do pessoal lá de cima.

Exemplo dado é exemplo estudado. Isso cai na prova e vai ter reposição de aula: Falta gente correndo por entre os corredores, com o cabelo em chamas, implorando por misericórdia depois de ver bem de perto a potência de um laser de estado sólido. Falta gente com jaleco em ruínas, gritando “Eureka, porra!”. Falta gente estilhaçando vidrarias com ácido, enquanto tenta se ajeitar com os óculos gigantescos de proteção. Falta gente derivando um seno ao som de Led Zeppelin, assim como falta gente integrando exponencial, desprovido de qualquer pudor, enquanto aprecia um uísque.

Falta gente que ri ao ouvir coisas do tipo “esta caveira significa pe-ri-go” ou ao ler “não tente isto em casa”. Todo mundo obedece, todo mundo fica quieto, e ninguém sai do laboratório com um arranhão, nem com mordidas, nem com um sutiã em volta da testa, nem com nada – Feynman os classificaria apenas como frouxos, mas não entraremos nesse mérito.

Além disso tudo, obviamente, falta o pilar das ciências modernas: As argumentações do tipo “minha teoria pode não fazer sentido algum pra você, mas tua mãe não reclama”, e, sobre isso, Einstein e Schroedinger podem apontar o dedo com mais propriedade que este que vos escreve.

O que quero dizer, em tons mais abstratos, meus amigos, é que parece ser bonito se esquecer de que a ciência é, sobretudo, uma tradução de como as coisas acontecem segundo as percepções meramente humanas, pautadas, sobretudo, pela conveniência de se fazer um trem de ferro, por exemplo, funcionar. Por definição, quem estuda ciência também são seres humanos. Fôssemos deuses – ou, melhor dizendo, até porque sou um rapaz de fé, se fôssemos os únicos deuses -, eu seria o primeiro ateu.

Parece pegar bem pra galera, no meio acadêmico, desde um bom tempo, omitir os próprios ímpetos. Fingir que não se tem vontade. É claro que lamber um experimento, na maior parte dos casos***, pode acarretar consequências desastrosas. Por outro lado, tratar tudo, até a ciência, com o cobertor de glamour político, com o descaso rotineiro e a falta de fúria, deixa tudo muito chato.

Deriva, deriva. Completeza, completeza. Integra, integra, duas vias, duplicata, publicação e as aulas ficam imersas no tédio. Fica mais interessante passar uma corrente por Facebook ou falar de Harry Potter no 9GAG que acompanhar a demonstração da identidade de Euler. Compreensivelmente, alguns acabam interpretando essa situação toda como se os assuntos é que fossem chatos, e não o pessoal lá de cima que fosse incompetente nesse quesito. Perde-se o interesse pelas ciências e pelas matemáticas, as quais são tão essencialmente belas quanto outras criações artísticas!

Quando se impõe que as respostas serão frustrantes, deixa-se de lado a vontade de perguntar. Juntos, de braços dados e corações a palpitar, patinamos todos na grande dança da academia, sem atrito, sem sair do lugar.

Estamos em guerra, amigos. Um sábio docente – não se engane: eles ainda existem! -, numa conversa de corredor, enquanto apreciava um cremoso café com minha pessoa, disse, com bastante propriedade: “Há muitos alunos aqui que tem dons artísticos. Há muitos alunos que escrevem, recitam, fazem música, pintam quadros, jogam videogame, assistem ao futebol domingo e ainda arranjam tempo pra destrinchar integrais e pensar sobre a composição da realidade. Há esses que conseguem ver a ciência em suas formas mais honestas e sinceras, e que não deixam de ter uma vida por causa disso… Mas não se preocupe, o Instituto haverá de continuar matando isso tudo, pouco a pouco, como há anos estamos fazendo”.

Já tá ficando chato. É hora de quebrar o tabu da completeza. É hora de xingar a mãe alheia, escrever nas paredes, dividir por zero, esfregar na cara dos bons modos e falar de teletransporte. É hora de perder o medo do absurdo.

Nós não somos computadores. Não somos médias ponderadas. Não somos artigos e não temos quarenta anos de experiência nos assuntos básicos, por enquanto. Não é razoável exigir proficiência em algo que se conhece há meio minuto. Somos, antes de tudo, seres humanos. Seres humanos que gostam de experimentar, que gostam de ver vidro quebrando, trovões sendo invocados por bobinas, fogos queimando e aquecendo a mente, ordem emergindo do caos, infinitos dividindo infinitos. Não é que todo cientista deva ser um maluco desvairado – é que os que o querem ser não precisem se trancar por dentro de ternos bem polidos e mofados.

Preparem o papel rascunho, as integrais e o DeLorean. Hoje, dividiremos por zero.

-137

*Lançamento parabólico é uma bela aproximação.

**Um abraço para o nosso amigo Doppler.

***Por outro lado, comer um experimento feito com chocolates e que permite calcular a velocidade da luz é sempre aconselhado.

Quarto, a Poesia

por Luis Misiara, o  Porcacultor.

Guarde um erro ruim, rápido agora.
Gente unida e ratazanas raivosas aladas.
Gritando, úvulas esticadas ricocheteiam rifles. Ai!
Gore upsets every runner running away
Gol!! Utopia, eu realmente rio afora.

Quinto, o Desenho

Esse é meu mesmo.

 Sexto, a Guerra Interna
Guerra
por Felipe Dreilick
O olhar dele fluía de uma janela a outra. “No subterrâneo é mais fácil se esconder”, talvez fosse o que sua mente dizia. Desde o início da manhã seus poros dos dedos, mãos, braços imploravam por uma gota de sangue, um naco de osso. “Já é a quinta vez”, disse uma mente que já não pertencia a ele. O Condutor, um homem respeitável que havia traído a mulher seis horas atrás, estava exausto depois da longa noite de luxúria e pronunciava os nomes das estações de um modo bem vago. Desde o início da linha, um de seus passageiros escutava atentamente cada sílaba, e sua mente devorava cada palavra em uma fornalha de ódio.
Sentou-se a seu lado um homem de meia idade. A direita. Ele, o outro, estava à esquerda, salivando sangue na janela reforçada. O cavalheiro à direita tinha uma gravata vermelha, sapatos bem engraxados, e carregava em seu braço, invisível aos outros sobre o terno brilhante, a tatuagem “Durindana”. E foi o braço carregando a espada que tocou o cavalheiro à esquerda.
As unhas fincaram na carne das mãos. Os olhos estavam tão focalizados que lacrimejaram. Todo aquele corpo esquentou de fúria. Não havia nada que impedisse aquele Golem de esquartejar toda a cidade, talvez o mundo, porque ele odiava até a mais jovem criança, o mais velho ancião. Um Office Boy, destruidor da Humanidade! “Uma compensação para o salário vago”. O pacote em sua mochila começou a amassar. Então o selo que estava peso ào pacote se rasgou. O trem parou, “Estação SSSssaaantanaa”. Disse o Condutor.

Sétimo, o Fim

Porque toda Guerra tem um fim. É um fim chorado, pesado. E todo mundo já não quer mais guerra.

O fim da guerra é quando todo mundo olha ao redor, se sente vazio por dentro, tem uma crise, e acha melhor voltar pro cotidiano. Depois pegam as sacolas, as malas, as marmitas, e saem em direção às casas. Cada um na sua, ninguém se olha, todos olham pro chão. O silêncio se impõe, só se ouve passos, o barulho das sacolas e os pássaros. Os pássaros parecem não acreditar que a guerra acabou assim, tão de repente.

E então, a vida vai voltando ao normal. Pouca gente comenta o ocorrido em público, tudo só fica “entre nós”. Os cientistas sociais, filósofos e psicólogos buscam compreender o ocorrido e fazem teses sobre isso. Os físicos, biólogos, matemáticos e químicos estão cheios de ideias novas por causa do rompimento da realidade.

Agora a vida parece andar melhor, apesar de triste e quieta, pacata. É como se ela fosse um menino chutando pedras, desanimado, mas certo de que tem andar pra sempre, chutando o máximo de pedras que der.

Agora a vida chuta pedras, mas logo logo volta a apertar uma campainha ou outra pra sair correndo e se esconder na viela.

O Abandono de Adão e A História da Filosofia Revisitada

Pois é, gente, faz 499 anos que Michelangelo integrou a Capela Sistina com essa peça sensacional que é a Criação de Adão.

Pintor e tartaruga ninja, deixou seu legado com essa obra prima, além de esculturas de sacos de batatas (como dizia Da Vinci).

E eu, parodiei.

Sim, é sacanagem. Mas a sacanagem não para por aí. Segue abaixo a revolução do conhecimento.

A História da Filosofia Revisitada

É com grande penar que vejo como os filósofos foram erroneamente lembrados.
Dotados de bom humor, descontração e descomprometimento, hoje são associados a coisas sérias, ásperas, concretas e complexas, pouco sendo vinculados a algo que condiza à verdadeira realidade deles.

Então resolvi mostrar as cartas e informá-los das verdades de algumas das frases mais célebres da Filosofia, supondo a adoção dessas explicações pela Academia, que só tem a ganhar credibilidade com isso.

René Descartes
René, ou Renatinho, pra gente que ia sempre no Tomas, é dado hoje como um grande pensador de todos os séculos e tem como frase primordial a “Penso, logo existo”.
A invenção em torno disso me parece, sinceramente, uma desculpa para ocultar a verdade. Igual quando uma criança tenta explicar uma mentira, “É, então… o… ele quis dizer que o mundo, sabe, o mundo é uma ilusão, entende? Porque o mundo é parte de uma experiência nossa, e é uma experiência nossa, o mundo, o mundo é, a gente só existe porque pensa, sabe? Quer dizer, como você pode ter certeza que não está sonhando agora?!”.
Cômico! A realidade disso tudo, conto a seguir: Renatinho estava cansado, no Tomas, com a gente. Bebendo todas, manguaçado. Até que alguém começou uma discussão sobre a personalidade de Zeca, meu vizinho. Zeca era um cara complicado e tinha muitos problemas com todo mundo. Aí, Renatinho começou a dizer tudo que vinha em sua cabeça sobre Zeca, e todo mundo ficou pasmo com as ofensas. Devo dizer que Zeca estava lá e, claro, foi tirar satisfações. Renatinho só pode dizer “Ué! Penso, logo és isto!”. E todo mundo caiu na gargalhada, menos Zeca, que alguns dias mais tarde fez uma sátira sobre essa frase, que acabou ficando conhecida e o inspirando a escrever um ensaio todo, dando um sumiço no Renatinho e passando a interpretá-lo depois de então. Nunca me esquecerei.

Nietzsche
Fred foi outra fatal vítima do povo. Todo mundo caiu em cima dele quando disse que “Deus está morto”, mas ele não fez por mal. Tudo aconteceu numa discussão sobre Mozart, na filial do Tomas em Berlin, e a coisa foi esquentando porque o tal do Sig adorava o Mozart e só falava de Mozart. Até que Fred se irritou e berrou, socando a messa e derrubando o chopp de todo mundo: “Amadeus está morto!”. Não me lembro bem quem estava lá no bar, ouvindo, mas acho que era um jornalista, aí a coisa ficou complicada. A parte do “Ama” foi surrupiada e deu em tudo quanto é jornal da Alemanha à Prússia. Sacanagem. Depois o Fred ainda teve que inventar um monte de histórias pra se explicar, porque a notícia tinha se espalhado de tal maneira que não dava pra voltar atrás. A última vez que eu vi ele, ele me disse umas coisas esquisitas sobre uma bailarina, e eu disse pra ele se cuidar.

Sartre
Já Sartre, famoso pela frase “O inferno são os outros” e terrível rival do Tomas por causa da Moninha, mal sabia que essa frase iria vingar. Primeiro porque ele não se lembrava de ter dito. Segundo porque, quando lembrou, percebeu que falava de algo totalmente diferente.
Seu filho brincava de Lego num belo domingo e fez muitos cenários religiosos. Aí o filho apontou para o único cenário baseado no inferno e disse:
– Papai, esse é o inferno.
Sartre riu, dizendo:
– Não, filho, o inferno são os outros.
Aí foi o mesmo que com o Fred, a mídia caiu em cima, e o Jean teve que bolar toda uma história, inventou até um tipo novo de crise, a pedido de Sig.

Sócrates
Pobre dele, que não teve tempo de frequentar o Tomas, mas que, pelo menos, se envolveu com a Telminha e foi do tempo do campeonato de frescobol nas Ágoras. Ele tinha um bordão sempre que se metia em encrenca – e sempre se metia em encrenca -, pra se livrar da culpa de qualquer coisa que acontecia, Sócrates soltava o seu célebre “Só sei que nada sei!”. Antes, já ouvi boatos de que a frase seria sobre uma suposta aula de natação, mas desminto o boato, a verdade mesmo é essa. Sócrates ficou famoso com a frase, só que não quis levar isso adiante, então pediu que Platão escrevesse umas doideiras sobre ele em troca do seu testamento. Platão escrevia e escrevia e nada de Sócrates morrer, até que um dia, o jovem garoto não aguentou esperar e pôs uns golinhos de cicuta no chopp do velho. Não deu outra.

E, pra terminar, mais desenhos feitos nas coxa.

Algazarra Panorama Mundial

Cogitando e, consequentemente, ergo sumo, eu cheguei a supôr em minha caixola que, não muito distante, começaremos a desenvolver um certo preconceito para com as nações europeias e a nação estadunidense.

A explicação é óbvia: a crise. Os gregos vão ficar com fama de pobres, miseráveis, devedores, e a filosofia Socrática e Pré-Socrática será abandonada. Dirão “Se os caras fossem bons pensadores mesmo, a Grécia não estaria em crise”. Será a terceira grande reviravolta Filosófica (pelas minhas contas) da história. Quem substituirá Sócrates e sua turma? Talvez uns chineses, com a Escola Terceirizada do Pensamento Contemporâneo. Ou então nós mesmos, elegendo como mestre o nosso querido Ditado Popular.

Já nos EUA, as coisas se passam diferentemente iguais. Abandonaremos, graças a Deus e à águia, Hollywood e substituiremos pelos explosivos filmes indianos (Bollywood), que são tão ruins quanto. Além disso, espera-se que os países reassumam as identidades nacionais antes corrompidas pelo capital estrangeiro. Mas na verdade, ninguém mais se lembra quais eram e, outra, o capital estrangeiro vai continuar vindo, só que agora de mãos diferentes.

A Alemanha prospera, a Inglaterra é aquela coisa, a Itália vai exportar os mafiosos da Sicília (e de Nova York) para Pequim, imagina que coisa estranha: Bollywood fazendo filmes sobre mafiosos italianos na China. Os colonizadores Portugal e Espanha vão ser vendidos para o Brasil e para a Argentina, a preço de banana, que também já ajuda a matar a fome.

O problema ainda será a África.

Enquanto o mundo oscila o Bom e o Mau, o Feio continua o mesmo.

Vida e Obra de Amarillus Cardini

 O poeta italiano Amarillus Cardini escreveu a sua obra prima, “Polifases”, em meio a uma turbulenta Veneza, em alguma década entre 256 e 804 d.C., mas, provavelmente, entre 451 e 492 d.C., datas referentes, respectivamente, ao seu nascimento e falecimento.
Amarillus, nesta obra, reuniu poemas que, afirmam especialistas, pertencem ao contexto social de Gana entre 758 e 623 a.C., onde houve forte efervescência política.
Os poemas, datados dentre os reinados de Mingus (4125 a.C) e Pecces (1813 a.C), fazem óbvia referência também aos estranhos hábitos do Papa Jubileo IV (42 d.C – 53 d.C), que era encontrado muitas vezes fazendo castelinhos de areia e com o dedo no nariz.
A ideia inicial da coletânea de poemas que compõem as “Polifases” é uma radical crítica ao extremismo que começou a figurar a América Latina na década de 70, tendo como plano de fundo experimentos com drogas e shows de Rock’n’Roll.
Amarillus Cardini ganhou notoriedade, principalmente no fim do século XIV, onde entrou no círculo social de grandes pintores Renascentistas. Em 1122, visitou o Brasil, onde se apaixonou pela ex-gladiadora Erígides (450 a.C. – 112 d.C.). Os dois protagonizaram uma romântica história de amor, transformada em filme por Hugo Zelladini (521 d.C. – 652 d.C.) em 1947. Eles tiveram cinco filhos, mortos até hoje.
O casal, apesar de feliz, depois de uma briga no intervalo de um musical da Broadway, foram embora nervosos e sofreram um acidente na Champs Eliseé e não resistiram.
Porém, suas vidas permanecerão para sempre na história, sendo um símbolo do amor, da amizade, e representando, principalmente, um marco na história da Dança

Eu, Queiroz e a Fotocopiadora

Histórias construídas com J. Guilherme Lício, do http://prypiat.wordpress.com – um dia desses sai a história toda sob o ponto de vista dele.

21 de Novembro de 1929

Lembro de ter chegado pontualmente às 8 na repartição. Subi os três andares que levavam ao 34 da Ala B do Edifício General Altamirando Gomes e entrei na sala prevendo o pior.

Realmente, o que me esperava era o pior. Assim que entrei, dei de cara com um Silva enfurecido, dizendo barbáries sobre mim e destruindo quase tudo que encontrava. Eu não tive a audácia de perguntar o que tinha acontecido, porque, de fato, eu já sabia o que tinha acontecido: as ações tinham virado lixo, pó, vento, ou o que você quiser. As ações deixaram de ser, had ceased to be.

Silva me viu e veio gritando em minha direção, dizendo que ele tinha avisado, que eu caí na lábia do Siqueira, e que o Peixoto tinha dito que aquilo iria acontecer. Que eu devia ter vendido tudo antes, antes que nada mais não tivesse valor nenhum, que, pelo menos aí, teríamos alguma merreca pra dividir e comer por mais uma semana pelo menos. Estávamos quebrados.

Eu me defendo, como sempre, com o mesmo argumento de que Siqueira era um superior e eu tive que obedecê-lo, não tive culpa. E agora, tinham que ver com ele sobre isso, porque eu só segui ordens e a culpa não era minha, quer dizer, eu mesmo teria vendido as ações há oito meses atrás, quando as coisas começaram a apertar e eu me lembro de ter dito pro Queiroz, “Queiroz, vamos vender essa bagaça antes que o couro coma, e se o couro comer, o couro de todo mundo aqui vai ser comido, e até os ossos”, e ele não me deu ouvidos.

E o telefone toca. Esse maldito telefone toca. Pra fugir das acusações do Silva encapetado, eu pego e atendo o telefone. Péssima ideia. Era o Mendes, mais encapetado ainda do que o Silva.
– Ô, Lorival!? – com a voz carregada de ódio.
– Fala, Mendes.
– Que é que tu fez?!

E aí começou tudo de novo, trocas de xingamentos, trocas de argumentos, mas de nada adiantava nada, porque tudo já tinha ido pro espaço.
O maledeto ainda teve a coragem de me dizer que não era pra ter ouvido o Siqueira, que todo mundo sabia que ele tinha esquema com o Marques e que eles sairiam dessa ilesos, sem nenhum arranhão no orçamento. Eu sempre duvidei disso tudo, mas agora parecia real. O maldito Siqueira me engambelou e ainda por cima saiu tranquilo, no maldito opala que dividia com o Marques. E nenhum dos dois nem pra dar as caras e pelo menos varrer o chão pra deixar o apartamento com dignidade pra imobiliária, nada disso.

Deu 8:16, eu desliguei o telefone pesado de raiva. Decidi “vou no banheiro pra dar uma relaxa”. Entrei no banheiro, lavei o rosto e me olhei bem seriamente no espelho, dizendo:

– Vamos ter calma! Não é porque o mundo caiu que eu vou me jogar no chão.
Saí praquela maldita janela pra fumar um cigarro. E também isso foi um erro.

Da janela, eu vi chegando na aparentemente calma rua o bendito opala bege de Queiroz. Aquilo me partiu a cabeça e quase tive um AVC, ainda bem que andava praticando cooper.

Pra surpresa de todo mundo, quando Queiroz chegou, ele também estava bruto, mas não era por causa de nenhuma ação. Ele procurava ferozmente seu charuto cubano que tinha ganhado da sogra, Soninha.

Remexeu tudo, jogou tudo no chão, colaborando decisivamente para deixar o ambiente inóspito. E procurava o charuto cubano da Soninha por toda parte, e xingava todo mundo, e me xingava, e eu xingava de volta. Sempre fui implicado com o Queiroz e não posso contar nos dedos o número de vezes que mandei-o tomar em seu respectivo orifício. Apesar dele ser um superior, eu nunca temi nada dele e ele sempre esteve no meu pé. Era uma relação respeitosa de ódio mútuo.

Continuava o Queiroz a procurar o cubano e veio com tudo pra cima de mim, me acusando.
– Ô, Lorival, onde é que tá o maldito cubano, seu porre?!
– Vai – pausadamente – tomar no cu, Queiroz! E aproveita e enfia lá o cubano também!
– Vai pro inferno, moleque! – e quase me deu um murro na cara, mas eu desviei e empurrei ele pra longe.

Nesse empurrão, ele deu de testa com a pobre fotocopiadora. Isso o tirou do sério e, para não me matar, pegou a máquina, ergueu-a com toda a sua velha força e a atirou pela janela. Nunca vou me esquecer de como ele saiu de lá rapidamente, enfurecido, e de como eu saí na janela pra ver o estrago e fiquei com as mãos levantadas, exclamando:

– Pupa que pariu, esse velho tá doido!

Isso, mais tarde, fez com que me acusassem pelo crime da destruição da fotocopiadora, mas consegui me safar, porque contei muito detalhadamente o que tinha acontecido naquela manhã, sempre tive boa memória.

Depois de ver, pela janela, a destroçada fotocopiadora, resolvi que iria lá embaixo ver como é que ela tava. Tinha uma boa desculpa pra dar uma relaxada.

Cheguei ao solo, e fui em direção da dita cuja. Ela tinha deixado de ser, had ceased to be. Estava desintegrada na minha frente, em cacos.

Porém, uma coisa eu reparei: a sua portinhola destinada à colocação de tinta continuava inteira. Me aproximei daquela marginalidade financeira, me agachando do lado dela. Abri a portinhola, meti a mão lá dentro e comecei a rir desenfreadamente.

Além de um pouco de tinta, o que encontrei na portinhola da finada fotocopiadora foi um belo, intocado e agradável cubano.
Foi o melhor charuto que fumei na minha vida.

13 de Maio de 1976

Há tempos, o tempo tinha passado e, com isso, algumas mágoas. E lá estávamos alguns de nós novamente, no mesmo prédio e na mesma repartição – Queiroz tinha conseguido tudo de volta por causa de uma aposta em 75. “Dessa vez é sério”, ele disse.

Passados uns meses, já ambientados com a rotina de trabalho, trabalhávamos e conseguíamos um lucro razoável.

Na tranquila manhã dessa sexta-feira, 13 de maio, eu acordei já atrasado por causa de uma cachaçada no dia anterior e, quando cheguei na porta do prédio, o porteiro me disse:

– Amigo, não chegou ninguém ainda da sua repartição e eu não posso deixar você entrar, precisa esperar o Queiroz porque ele tem a autorização e, além de tudo, as chaves.

– Tá certo.

Quer dizer, não tá nada certo. Já eram 8:30, sendo que entrávamos às 8, e eu era o primeiro a chegar.

Então eu fiquei lá, sentado na calçada, achando tudo aquilo muito ridículo, e com uma ressaca lascada. Minha cabeça doía demais.

Depois de uns vinte minutos, vejo o opala bege chegando.

Queiroz sai do carro, se achando todo elegante, para pra acender um cigarro, e volta a andar. A hora em que o maldito me olha sentado na calçada, tem a coragem de me dizer uma coisa assim:
– Ih! Chapou e dormiu aí mesmo?!
Fiquei transtornado.
– Ô, Queiroz, vê se vai fazer aquele nosso combinado vai, eu to aqui faz meia hora esperando e você me vem com uma merda dessas?!
– Chega disso, moleque. Preciso conversar sério com você. – ele ficou sério.

Até aí tudo bem, ele abriu a porta, a gente entrou na repartição, começamos a trabalhar e ele me veio com esse papo de novo.
– A gente precisa falar sério.
– Tá, manda, vai.

E começou com um papo de que a sua ex-sogra, Soninha, estava em seu leito de morte e que ele iria visitá-la a pedido dela mesma, e ele temesse que ela pudesse perguntar sobre o charuto cubano de 40 anos atrás que eu tinha achado na fotocopiadora e fumado e então ele precisava saber o gosto e coisa e tal.

Eu olhei bem pra cara dele e disse:
– Ô Queiroz, eu posso te falar o gosto do cubano sim!
– Não, não! Você precisa é arranjar um cubano pra mim, aí eu vou fumar e ver como é.
Esse cara era demais.
– Isso é um absurdo! Como é que eu vou arranjar um cubano hoje?! Cuba tá em regime fechado, meu irmão! E outra que eu não tenho dinheiro nem pra ir pra Olaria!
– Você vai ter que dar um jeito!

E continuou ele a tarde toda me enchendo o saco, falando que eu precisava arranjar, tal, pra eu ver no mercado negro se coneguia e todo tipo de coisa assim.

Mas o bicho falou tanto, que eu fiquei estressado e pedi pra ele parar com essa merda, uma última vez.

Claro que ele não respeitou a minha sugestão e continuou enchendo o saco.

Recordar é viver: eu me levantei, puto da silva, peguei a maldita fotocopiadora, levei até a mesma janela de 1929 e defenestrei-a. Deu pra ouvir o delicioso som dela se espatifando no chão.

O Queiroz, idiota que era, ficou sem reação, me olhando e tentando raciocinar sobre o que eu tinha feito.

Eu virei pra ele, na maior raiva, e disse:
– Ó, Queiroz, desce lá e vê se tem algum cubano na maldita portinhola. Aproveita e vai pra pupa! Eu me demito dessa merda! Não dá pra conviver assim!

E então eu saí, com todas as minhas coisas. Um dia depois, ele me ligava pedindo desculpas e falando pra eu voltar pra repartição. Eu aproveitei e pedi um aumento e uma garrafa de uísque. Ele disse que aumento não dava pra dar, mas que garrafa de uísque ele arranjava três. Fechado.

Revolução do Riso

Há algumas diferenças entre tentar abater o coelho, e matar o coelho e mostrar o pau. Primeiro porque o pau está longe de ser a melhor ferramenta para se abater um coelho. Claro que, também, se você desse um tiro num coelho, nem precisaria mostrar a arma, já que o barulho final condenaria os meios. E enquanto isso, os coelhos fogem.

Nos EUA e em outros lugares, mandam ver no “Occupy”, “Ocupe”, etc. Em Jerusalém, Jesus e seus amigos pregam “Ocupai-vos e bebei-vos”. No Brasil, a coisa funciona diferente: ao invés do famoso “Ocupar”, a palavra de ordem é “Culpar”; “Culpar Brasília”. E é uma tática eficiente, funciona desde que nos chamamos por República, com as devidas variantes em “Brasília”.

Eu sei que me culpam por parecer ser “Anti-Revolucionário”, ou “moralista”, ou até “reacionário”, mas eu não sei do que estão falando. A gente não pode soltar uma opinião que logo vira alguma coisa. Eu não quero virar nada. Eu não estou do lado do Sistema. Se vocês são os 99%, eu sou o 180%. Se vocês acham que o Capitalismo precisa acabar, eu já estou criando o sétimo sistema político pra substitui-lo. Pouco menos sou niilista. Nunca faria parte de um grupo representado por uma palavra com tantos Is, é a vogal que eu menos gosto. Eu gosto mais da vogal U e também da O. A me enche o saco, E então, eu nem comento. Legal também é a vogal perdida Y, todo mundo lê como vogal, só que ninguém admite. É o filho bastardo.

Foco, foco, foco. Voltando, sobre tudo aquilo que está em voga, não é que eu seja “Anti-Revolucionário”, é que eu faço parte da Revolução do Riso. E sou eu sozinho.

Deixo aqui proposto. Se querem revolucionar fazendo algazarra, sangue, sacanagem, gritaria, protesto, vão lá, beleza, mas acho que a principal revolução é a elegância. Minha ideia era, ao invés de ocupar qualquer lugar, ir nesses lugares e ficar rindo de quem entrava. Rir de todo mundo que faz parte do Sistema. Ou então só rir e ficar rindo. Aí vocês vão ter que aguentar todas as piadas dos jornalistas a respeito. E da opinião pública, mas a opinião pública é a opinião de Deus, e Deus não sabe nada de política.

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Casamento Elegante

Desculpa, eu já estive aqui antes, eu sei. Mas é que não estou habilitado a acreditar no que ouço da cozinha, explicitando a realidade de um recente casamento de família requintada da cidade:
– Muito luxo e jurupinga.

Pra mim, já deu.

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Extraterrestres, entre outros


Hoje me deu vontade de perder o foco, então vou fazê-lo sem estribeiras nem eiras.

Vou adentrar o secreto mundo dos Extraterrestres e sugerir formas de interpretar suas manifestações. Comecemos.

Os primeiros casos de ETs não são novos, porém, é previsível no gráfico um aumento considerável de casos e/ou avistamentos com o surgimento dos filmes de ficção científica. Coincidência? Não sei. O sucesso subiu pra cabeça dos alienígenas? Aposto que sim.

Depois dos primeiros casos, aconteceram os primeiros causos. E com os causos, os fatos foram se mistificando e, até hoje, ninguém sabe se viu um disco voador direito – mas ET mesmo, já viram aos baldes.

O disco voador, depois de ser visto, libera um peculiar e desconhecido gás protetor que tem como fim um não-integral esquecimento do avistamento por parte da vítima, o que acaba virando confusão.

Há muitos séculos, foram levantadas teorias sobre toda essa história, mas a minha teoria mesmo é de que sejam uma sociedade secreta. E como toda teoria não necessariamente é verdade, eu não vou defender meu argumento.

As topadas por aí com alienígenas em carne e osso (chuto raso), porém, são auto comprobatórias. “Você viu um alien? Como pode provar?”, “Ué, meu amigo, eu vi, está não só provado, como comprovado”.
O problema é que o excesso de filmes, revistas, livros, etc, sobre isso, nos confunde a famigerada caixola. Então, continuamos céticos e titubeantes em relação ao assunto.

Mas ninguém levanta outra questão: o que ELES acham de nós?

Minhas apostas estão em que eles nos acham uns caras legais, uma raça até boa, só que não dariam seu raio destruidor massivo pra nós. Assim como você não daria sua serra-elétrica para o seu cachorro.
Acham também que podíamos melhorar, mas que precisaríamos abandonar aqueles papeizinhos estranhos que estão em todo lugar, porque eles parecem uma raça alheia à nossa existência e que em breve nos aniquilará e dominará a Terra.
Outra sugestão da opinião alienígena é a seguinte, cientificografada: – Ovni, ovni, ovni. Você gosta desse nome?
– Não muito. Gosto mais do inglês, UFO. E você?
– Sei lá. Acho que isso tudo é melhor do que disco voador, pelo menos.
– Nisso eu concordo. Mas, afinal, o que tem pra fazer às 32 da penumbra?
– Aonde?
– Qualquer lugar.
– Acho que nada, nunca tem. Vamos dar um pulo num bar?
– Opa! Com certeza. Brigamos de novo ou não?
– Óbvio que sim, depois a gente confere no YouTube.
– Sampa?
– Sampa.
– Bora.

Enfim, eu sou assim mesmo. Até loguinho.

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Combo Despretensioso de Quinta

Só pra descontrair.
Mas não se esqueçam que a campanha de apadrinhamento do Millôr continua.
Inclusive, ontem, depois que eu publiquei o texto aqui, acabei sabendo da notícia de que ele teve alta e saiu do hospital depois de cinco meses, FOI UM SINAL!

Então vamos nessa, que é boa a beça.

Pra ajudar, mande o link do blog ou daquele post específico, ou para o twitter (http://twitter.com/millorfernandes) ou para o site (http://www2.uol.com.br/millor/aberto/escreva/index.htm).

E por aí vai.
Aquele abraço (nem o do Gil, nem o do Caetano, o meu mesmo).

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Millôr, me apadrinhe.

Como diria qualquer rostinho bonito: “cansei do ostracismo”.

O problema é que eu não sou um rostinho bonito, apesar de toda minha elegância, e também não quero nenhum teste do sofá, porque acordei com dor nas costas.

Então, eu tive um plano: ser apadrinhado pelo Millôr Fernandes. E, antes que me perguntem “por que Millôr?”, eu digo: ele está vivo (um dos poucos), ele é o principal expoente humorístico da atualidade, e, é claro, ele precisa de um sucessor.

Então, eu vim aqui, na maior humildade e benevolência, e me dispus, sem eira nem beira, querendo o mundo e o fundo.

Então, o plano é o seguinte:

Adentraremos, em massa, seus canais de comunicação, ou seja: twitter e site.

No twitter, a ideia é mandar qualquer coisa sobre a campanha e o link do meu blog junto, e aí, ver no que dá. O twitter dele é https://twitter.com/#!/millorfernandes

No site, é a mesma coisa. Vamos mandar a ideia da campanha com o link do blog na seção “Escreva para o Millôr”, do link: http://www2.uol.com.br/millor/aberto/escreva/index.htm

Agora, se você quer saber o motivo de toda essa sacanagem, e o que eu vou ganhar com isso, deixo claro: não faço ideia, só quero gerar polêmica e abalar as estruturas. O Millôr que veja o que fazer comigo, se um “muito obrigado”, um “get out of here, stalker” ou uma paçoquinha, aí é com ele. O importante é participar.

E o que vocês ganham com isso? Aí eu também não sei. Meu “muito obrigado”, sem nenhum “get out of here, stalker” e muito menos uma paçoquinha, porque eu estou com tostões negativos.

Então, peço, encarecidamente: percam esse tempo comigo.

Obrigado,

Danilo ou Chico Carandina.

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A precaução do tarado

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Deu No Que Deu

Deu no Nenhum York Times: ser contra o governo tá na moda. E ser contra o sistema político, o sistema financeiro e o sistema em geral também. “Lute contra o Sistema”, eles dizem. E dizem desde 1960, e dizem nas paredes dos hospitais e terrenos baldios, com letras disformes e negras.
Deu no Lugar Algum Diplomatique: o mundo está em crise civil. E olha que eu já venho dizendo há tempos. “Fica, vai ter revolução”, é o que dizem. Só não sei onde e nem como. Pergunte à burguesia delinquente.
Os desempregados todos do mundo se comportam como classe média ou se suicidam, como na Grécia. Ou são ateus. Ou acessam o Tumblr e o 9GAG. Os revolucionários todos acessam o 9GAG e vestem a máscara do Guy Fawkes. Os capos da revolução vieram das profundezas da internet (vide Deep Web) e, como sempre, não correspondem à população real, mas à uma população específica, não tão pequena, porém com os pés pouco fixados nesse chão que nos aprisiona.
Remember, remember the Fifth of November. Talvez poucos dos que dizem isso saibam realmente os planos de Guy Fawkes e turma para o poder. Eu não quero me lembrar de nada, porque isso nada significou.
Deu no Facebook: o mundo está com abstinência de luta política. Luta política é uma beleza, ninguém luta de verdade, ela parte da reclamação e volta pra reclamação. Luta política todo mundo gosta. Deu em todo lugar conflitos entre estudantes e policiais: Brasil, Chile, Europa, EUA, onde for. Deu em pouco lugar que os pobres mesmo continuam numa boa, comendo o torresmo que o diabo amassou, ocupando a periferia ou então alguns prédios abandonados no centro da cidade.
Luta política é uma beleza, mas luta humana exige muito da gente. Primeiro a política, depois a humana. Vamos pelas partes que interessam primeiro. “Revolução se faz por violência”, me dizem, “é o único modo que funciona”. Claro, claro. Tanto que sempre funcionou, todas as revoluções violentas do mundo deram certo, tanto é que agora estamos todos numa nice, sem problemas.
Enquanto houver sangue sendo derramado, haverá sangue sendo derramado, porque é a máxima de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma. E eu não acho que sangue se tranforma em música, assim como carne não se transforma em milho.
Deu na Bolha de São Paulo: nunca fomos tão infelizes e insaciáveis. Adoramos viver sobre esse lençol de imagens e símbolos que construímos, mesmo que isso tenha custado o colchão da realidade.
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O que foi Aristeu?

Nada como sair impune de uma tremenda bebedeira. A única coisa que ressacou em mim foi uma dor nas costas. Mas isso não foi pela bebedeira, foi pelo inapropriado uso do adormecer.
Como é perceptível a olhos nus e sem pudores, eu não estive completamente em mim ontem. Aristeu que o diga.
A festa estava normal, no meu nível, até que resolvemos levar uma amiga embora, andando. Fomos eu, um amigo e um desconhecido (e a amiga, claro). O desconhecido surgiu após termos saído do portão.
Foi nos acompanhando o tempo todo, pouco dizendo e percorrendo muito mais passos do que nós, os outros três, juntos, no mesmo caminho. Ele ia pra lá e pra cá, bambeando, tropegando, tropeçando e cavocando o vento com sua toca preta.
Era um rapaz um pouco pequeno, mas não muito. Vestia um moletom preto e calças jeans. O moletom terminava em uma toca, no topo, e ele a vestia sem pudores.
De repente, o desconhecido saiu correndo como um touro espanhol em direção a um carro, com a sua negra toca apontada para a traseira do inocente veículo. Tão de repente quanto foi, de repente ele parou, atônito e dramático, com os braços abertos e posição de alarme. Não estava, na verdade, tão perto do carro, mas era questão de um segundo e meio para cabeceá-lo com vigor.
Caímos na gargalhada. Que ser misterioso era aquele. Ele não dizia quase nada, mas quando dizia, fazia-o com propriedade.
– Noooossa, o Jão e o Jéferso vão matá eu! – com a língua tão cambaleante quanto suas pernas.
Recomeçávamos a rir, e quando a recuperação era atingida, perguntávamos.
– O quê?! – pausa para risos – Porque eles vão te matar?
– Eles iam dormir em casa hoje! Agora, eles vão chegar lá, tocar a campainha e eu não vô tá lá! Minha mãe vai atender xingando! Preciso ir pra casa!
O excesso de exclamações é necessário para fazer justiça às suas falas.
E então a gente ria e ia andando. Todo mundo subiu e desceu as escadas da passarela sem problemas, graças ao corrimão. Depois, chegamos na casa da amiga, só que o desconhecido teve que dar uma parada pra expurgar os demônios na outra esquina.
Nos despedimos, ela partiu. Retomamos a viagem com ele
– Cara, qual é seu nome, pelo amor de Deus? – não me contive.
– Aristeu.
A surrealidade da persona citada havia atingido níveis utópicos. Aristeu era seu nome, e isso não se digere tão facilmente, pelo menos não sem lubrificar a garganta com risada.
– Aristeu?!
– É!
– Que nome legal! É difícil ver gente com nome legal assim.
Ele achou que era alguma ironia, e disse:
– É, legal mesmo.
– Sério mesmo! Baita nome!

Até que chegou o momento da partida.
Aristeu se virou para nós e disse que precisava ir, porque senão o Jão e o Jéferso iam matá ele. A gente perguntou se ele precisava de ajuda, se queria que a gente fosse com ele, mas ele parecia estar pelo menos ciente de onde morava.
Depois, ele tirou a toca e revelou ter uma grande juba, era um cabeludo, isso sim. Despediu-se, agradecendo a preocupação dispensada, e partiu.
Nós, os dois restantes, continuamos. Subimos e descemos as escadas sem problemas, brincamos de gangorra no parquinho de frente com a igreja e, adrenalinamente, tocamos a campainha de uma casa, às 3:30 de sexta-feira.
Nada como sair impune de uma tremenda bebedeira.

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UsPM

Muitos falam sobre a ocupação dos estudantes da USP na reitoria da mesma, e aquela coisa toda, mas, como eu já vi muitos “a verdade por trás da ocupação na USP” que desmentiam um ao outro, eu resolvi condensar todos eles e juntar com as diferentes opiniões populares, para que, aí sim, a imparcialidade e a verdade fossem conservadas como salsichas em vidros de palmito.

Como começou?
Tudo começou com estudantezinhos de filosofia fumando maconha em uma parte do FFLCH (alguma coisa assim, não sei), com moletons da gap, óculos da gucci, tênis da nike, calças Levi’s, entre outros acessórios burgueses (porque é isso o que eles são, burgueses gastando o dinheiro do papai pra fumar maconha e o nosso, estudando em uma instituição pública). Eles estavam numa boa, num tremendo barato, até que os políciais que abusam do poder, tratando estudantes maconheiros como mendigos, ou melhor, indígenas, violentamente, inexcrupulosamente e com muita opressão, resolveram averiguar a parada e viram uma boa oportunidade de aventura no momento. Cabe dizer que os PMs estavam na universidade por causa do crescente número de casos de assalto e estupro, além de ter ocorrido até um homicídio naquele ambiente gostoso.
Então, os PMs chegaram estraçalhando todo mundo. Batendo e espancando, doidos pra ver sangue de maconheiro que financia o tráfico com o dinheiro do papai.
Os estudantes, pobres vítimas do poder da polícia militar e temedores de um golpe militar na universidade, começaram a rogar por sua liberdade de fumar maconha ameaçada e a grafittar, nos muros, “ABAIXO A DITADURA”, “ABAIXO A PM”, “ABAIXO AS CALÇAS”, etc.
Os policiais, muito raivosos e espumantes, desceram ainda mais a lenha, impedindo qualquer tipo de diálogo, o que até os estudantes apoiaram, já que diálogo não é uma coisa muito divertida.
Os estudantes, agora mais vítimas do que antes, resolveram aproveitar a onda de zoação geral, e começaram a protestar contra o Heitor (não sei quem é esse cara também) e contra outras coisas que rolam soltas na USP, que já era uma zoação política geral antes. Então, todo mundo curtiu a ideia de avacalhar as aulas e todo mundo tá apoiando um lado ou outro, até a população geral, que gosta mesmo é de ver estudante burguês levando cacete.
Agora, tá todo mundo lá, na sala do Heitor, sendo retirado com violência ou danone, enquanto todos nós discutimos quem tá certo e quem tá errado e quem tá vendendo danone.

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Uma Banhã Manhada a Bach

Acordei, como sempre faço todo dia após ter dormido, e assim percebi, pela clareza do sinal, que o dia não seria como os outros, pois teria um número a mais que o de ontem.
Percebi, porém, que a manhã estava um pouco nova, e que, antes de dormir, não estava tão claro, talvez porque fosse noite. Achei melhor fingir que nada acontecia e comecei a viver um dia normal como os outros.
Mas, por mais que eu tentasse, não conseguia esquecer o que tinha acontecido no dia de ontem: ele passou. E isso não era simples pra mim, porque, se o dia de ontem tinha passado, o dia de hoje também haveria de passar. Não dava pra esconder que havia algo de muito estranho nisso. Os dias passavam sempre, mas no dia de hoje eu percebia que nada estava no passado, mas sim no presente. Como se tudo o que tivesse acontecido antes já tivesse passado, e só tivesse me restado o exato momento para agir. Isso me assustava. Me assustava saber que sobre amanhã, eu nada posso fazer hoje. E que as portas de ontem se fecharam pra mim a partir de hoje.
O que fazer perante essa situação misteriosa? Tentava de todos os modos me esquecer de que estava no presente, mas bastava conjugar um verbo para alguém e a verdade vinha a tona. Me sentia crucificado. Me espantava viver sob essas condições, onde apenas se pode interferir no dia de hoje e nada além. E o ontem? O amanhã? O anteontem? Uma infinidade de dias que existiam, um infinito impalpável, inconjugável.
A vida me deprimia. E, naquele dia, naquela noite, não consegui dormir. E quando acordei, reparei que não tinha dormido, e que, então, o dia não havia passado.
Olhei para o calendário e o número havia mudado sim, mas, para mim, hoje ainda era hoje e não ontem, como antes havia acontecido. Isso não bastou para minha satisfação, pois, logo me dei conta de que o amanhã não tinha chegado igualmente. E, não tendo chegado o amanhã, eu continuava no hoje desde ontem.
Continuava a me sentir impotente quanto ao tempo, enquanto ele passava, dia após dia, e eu, dia após dia, o via passar sem ter a capacidade de fazer nada sobre isso. Os dias passavam, e eu só tinha o hoje, todo dia, não importava quantos amanhãs chegassem.
Resolvi ligar para um amigo qualquer, a fim de desabafar e, talvez, ter uma solução. Eram onze da noite.
– Alô, Pablo? – falei com a voz cansada e insone.
– Diga, Moreira.
– Ando numa nhaca. Todo dia tem sido hoje e quando o amanhã chega, aparecem mais amanhãs ainda, e eu não posso fazer nada. Sem falar de ontem.
– O que foi? O que aconteceu ontem?! – ele perguntou, confuso.
– Ontem passou! E agora, o que é que eu faço?
– Hum, sei lá. Deixa isso pra amanhã.

Foi então que a luz se fez em minha mente, e, hoje, eu sou feliz, tendo encontrado a solução para tudo o que me aflingia: deixo todos os meus problemas para os respectivos amanhãs.

Ai ai, Jesus, quem diria que logo você fosse a alegria dos homens!